PAI DE
DUAS

A LUTA DE UM PAI SOLO
Silhueta de pai com duas filhas
Autobiografia
Paulinho Araújo
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Claryssa
10 Anos
Pérola
5 Anos

Capítulo 1: O peso do mundo aos 17


Quando o corpo grita sob a pressão.

A vida virou de cabeça para baixo muito cedo. Aos 17 anos, quando eu ainda era um moleque aprendendo a viver, descobri que ia ser pai. Era tudo novo, assustador. A pressão das cobranças era tão grande que meu corpo não aguentou. Eu trabalhava num depósito de pallets com o avô da Claryssa. Era só eu e ele.

Um dia, cheguei mais cedo no trabalho. No trajeto eu já estava me sentindo mal. Quando cheguei lá, deitei no chão com uma dor insuportável no peito e falta de ar. Tive um princípio de infarto aos 17 anos. Desmaiei ali, sozinho. Fui salvo por um mandado de Deus: a nossa cachorra mascote ficou lambendo minha cara, me mantendo num estado entre acordado e dormindo por uns 40 minutos. Quando o avô da Claryssa chegou, me viu caído e chamou a ambulância. Passei o dia todo no hospital.

Meses depois, numa discussão em casa, a pressão subiu de novo e tive o segundo princípio de infarto. Fiz tratamento e nunca mais tive problemas, mas aquilo foi o aviso: eu precisava ser forte, mas precisava estar vivo.

Capítulo 2: A escolha por Claryssa


A separação e a decisão de ficar.

O tempo passou. Quando a Claryssa tinha cerca de dois anos e meio, as coisas desandaram. Nosso casamento nunca foi perfeito, tinha seus altos e baixos, momentos felizes e tristes, como qualquer um. Mas em meio a uma traição, tivemos uma briga definitiva e ela saiu de casa.

Foi aí que tomei a decisão mais importante da minha vida: ficar com a Claryssa. No começo, a mãe ainda pegava a menina uma vez ou outra. Mas com o tempo, ela ficou ocupada demais. As ausências se tornaram comuns, as desculpas para não buscar aumentaram. E assim, nesse abandono gradual, eu fui me tornando pai solteiro. A mãe seguiu o rumo dela, casou de novo e sumiu. Hoje em dia até aparece, mas só quando quer. Eu fiquei. Virei pai e mãe ao mesmo tempo, aprendendo na marra.

Capítulo 3: Pérola e o milagre de 800g


O medo de perder e a vontade de viver.

O tempo passou e num outro relacionamento, veio a Pérola. Mas o começo dela foi uma batalha pela vida. Ela nasceu prematura de 7 meses, pesando apenas 800 gramas. Era tão pequena, tão frágil, que nenhuma roupa de recém-nascido servia nela.

Tivemos que improvisar da forma mais dolorosa possível: ela usava roupas de boneca. Literalmente. Ver minha filha vestida com roupa de brinquedo porque a vida real ficou grande demais para ela naquele momento foi um choque. Foram 60 dias exatos vendo ela numa incubadora, cheia de fios. Eu ia para o hospital todo dia com o coração na mão, rezando para ela aguentar. E ela aguentou.

Capítulo 4: O Resgate da Pérola


"Aquele dia mudou tudo."

Me separei da mãe da Pérola também, e infelizmente ela se afundou nas drogas e na tristeza. Um dia, recebi uma ligação da dona da casa onde elas moravam: "Paulinho, as crianças estão trancadas sozinhas. A mãe saiu e não volta".

Larguei tudo e fui. A casa estava imunda, uma sujeira desumana. A Pérola estava lá, junto com os irmãos. Peguei minha filha na hora e liguei para os tios maternos buscarem as outras crianças. Levei a Pérola para casa, mas quando fui dar banho, vi o estrago. A cabeça dela estava cheia de feridas e bolhas de pus por falta de higiene. Tivemos que correr para o hospital. Fiquei uma semana inteira internado com ela. Ali, prometi que cuidaria dela para sempre.

Capítulo 5: A correria e a Vó


Minha mãe, meu braço direito.

Hoje minha vida é uma correria sem fim. Trabalho das 22h às 06h. Enquanto todo mundo dorme, eu estou lá garantindo o sustento. Mas eu não conseguiria se não fosse minha mãe. A "Vó" é quem segura as pontas à noite. É com ela que as meninas ficam, tomam banho e comem direitinho. Ela é minha base, a pessoa de confiança que cuida delas como se fossem filhas.

De dia, sou eu. Faço almoço, levo na escola, arrumo a casa. A Claryssa (10 anos) é mais séria, mais fechada, acho que por tudo que viu. Ela tem dificuldade na escola, mas me ajuda muito. A Pérola (5 anos) é um doce, vive me abraçando. Eu guardo o cansaço para mim e sigo em frente.

Capítulo 6: O que ninguém vê


Julgam o meu sono, mas não sabem da minha luta.

Tem muita gente que me vê no trabalho ou em outros lugares, às vezes dando aquela pescada de sono, encostando a cabeça na parede por um minuto, e já me julga. O olhar das pessoas é pesado. Eles pensam: "Nossa, que cara preguiçoso" ou "Tá dormindo em serviço?". Eles olham com desprezo, como se eu fosse desleixado.

O que eles não sabem é que minha jornada não tem fim. Muitas vezes chego em casa às 7h, 8h ou até 9h da manhã, moído. Durmo até meio-dia e não durmo mais. Levanto porque eu não tenho ninguém para fazer a comida por mim. Eu não tenho ninguém para arrumar a casa no meu lugar.

Eu não posso me dar ao luxo de escolher dormir ao invés de fazer os afazeres. Se eu não levantar, ninguém faz. O descanso vira luxo quando a obrigação chama. Meu cansaço não é de farra, é de batalha. Se essas pessoas soubessem que eu troco meu sono pelo bem-estar das minhas filhas, o julgamento virava respeito.

Capítulo 7: Mãos calejadas e laços de fita


O desafio de um homem "bruto" no mundo das meninas.

Além do cansaço físico, tem outro desafio gigante: eu sou um homem criado de um jeito "bruto". Eu não entendo absolutamente nada do universo feminino. Para mim, tudo é um desafio. Pentear cabelo? Esquece. Eu não sei fazer aqueles penteados bonitos, mal consigo passar a escova sem elas reclamarem. Tentar combinar roupa ou entender os sentimentos delas é como tentar ler em outra língua.

Como não tenho uma esposa ali para ensinar essas coisas, todo dia é dia de aprender coisas novas. E o desafio só aumenta. Recentemente, a Claryssa virou "mocinha" e, vou ser sincero, está sendo um desafio enorme para mim. São situações delicadas, mudanças no corpo e na mente que eu, como homem, nunca vivenciei. Mas estou encarando de frente, buscando aprender como ser o apoio que ela precisa nessa nova fase. Minhas mãos grossas ainda se atrapalham, mas o esforço para entender esse mundo delas é diário.

Minha Rotina em Números

22:00 - 06:00
Turno de trabalho (Madrugada)
07:00 - 09:00
Chegada / Café / Organização
09:00 - 12:00
Sono (Apenas 3h)
12:00 - 18:00
Levantar na marra: Almoço, Limpeza, Roupas, Escola e Atenção.
21:00
Preparação para começar tudo de novo.
"Meu sonho? Que elas sejam independentes. Que não precisem de ninguém para se sustentar ou para serem felizes. Estou criando mulheres fortes."
Dica para outros pais:
Nunca abandonem seus filhos. Sacrifiquem-se. Ensinem eles. No final, tudo isso valerá a pena.

Uma Carta para o Futuro

"Claryssa e Pérola,

Se um dia vocês lerem isso, já adultas, saibam: todo o cansaço valeu a pena. Eu não fui o pai perfeito, longe disso, mas fui o pai que ficou. Sacrifiquei meu sono porque vocês são tudo para mim. Sejam fortes, independentes e saibam que nunca estiveram sozinhas."

- Do seu pai, Paulinho.