A vida virou de cabeça para baixo muito cedo. Aos 17 anos, quando eu ainda era um moleque aprendendo a viver, descobri que ia ser pai. Era tudo novo, assustador. A pressão das cobranças era tão grande que meu corpo não aguentou. Eu trabalhava num depósito de pallets com o avô da Claryssa. Era só eu e ele.
Um dia, cheguei mais cedo no trabalho. No trajeto eu já estava me sentindo mal. Quando cheguei lá, deitei no chão com uma dor insuportável no peito e falta de ar. Tive um princípio de infarto aos 17 anos. Desmaiei ali, sozinho. Fui salvo por um mandado de Deus: a nossa cachorra mascote ficou lambendo minha cara, me mantendo num estado entre acordado e dormindo por uns 40 minutos. Quando o avô da Claryssa chegou, me viu caído e chamou a ambulância. Passei o dia todo no hospital.
Meses depois, numa discussão em casa, a pressão subiu de novo e tive o segundo princípio de infarto. Fiz tratamento e nunca mais tive problemas, mas aquilo foi o aviso: eu precisava ser forte, mas precisava estar vivo.
O tempo passou. Quando a Claryssa tinha cerca de dois anos e meio, as coisas desandaram. Nosso casamento nunca foi perfeito, tinha seus altos e baixos, momentos felizes e tristes, como qualquer um. Mas em meio a uma traição, tivemos uma briga definitiva e ela saiu de casa.
Foi aí que tomei a decisão mais importante da minha vida: ficar com a Claryssa. No começo, a mãe ainda pegava a menina uma vez ou outra. Mas com o tempo, ela ficou ocupada demais. As ausências se tornaram comuns, as desculpas para não buscar aumentaram. E assim, nesse abandono gradual, eu fui me tornando pai solteiro. A mãe seguiu o rumo dela, casou de novo e sumiu. Hoje em dia até aparece, mas só quando quer. Eu fiquei. Virei pai e mãe ao mesmo tempo, aprendendo na marra.
O tempo passou e num outro relacionamento, veio a Pérola. Mas o começo dela foi uma batalha pela vida. Ela nasceu prematura de 7 meses, pesando apenas 800 gramas. Era tão pequena, tão frágil, que nenhuma roupa de recém-nascido servia nela.
Tivemos que improvisar da forma mais dolorosa possível: ela usava roupas de boneca. Literalmente. Ver minha filha vestida com roupa de brinquedo porque a vida real ficou grande demais para ela naquele momento foi um choque. Foram 60 dias exatos vendo ela numa incubadora, cheia de fios. Eu ia para o hospital todo dia com o coração na mão, rezando para ela aguentar. E ela aguentou.
Me separei da mãe da Pérola também, e infelizmente ela se afundou nas drogas e na tristeza. Um dia, recebi uma ligação da dona da casa onde elas moravam: "Paulinho, as crianças estão trancadas sozinhas. A mãe saiu e não volta".
Larguei tudo e fui. A casa estava imunda, uma sujeira desumana. A Pérola estava lá, junto com os irmãos. Peguei minha filha na hora e liguei para os tios maternos buscarem as outras crianças. Levei a Pérola para casa, mas quando fui dar banho, vi o estrago. A cabeça dela estava cheia de feridas e bolhas de pus por falta de higiene. Tivemos que correr para o hospital. Fiquei uma semana inteira internado com ela. Ali, prometi que cuidaria dela para sempre.
Hoje minha vida é uma correria sem fim. Trabalho das 22h às 06h. Enquanto todo mundo dorme, eu estou lá garantindo o sustento. Mas eu não conseguiria se não fosse minha mãe. A "Vó" é quem segura as pontas à noite. É com ela que as meninas ficam, tomam banho e comem direitinho. Ela é minha base, a pessoa de confiança que cuida delas como se fossem filhas.
De dia, sou eu. Faço almoço, levo na escola, arrumo a casa. A Claryssa (10 anos) é mais séria, mais fechada, acho que por tudo que viu. Ela tem dificuldade na escola, mas me ajuda muito. A Pérola (5 anos) é um doce, vive me abraçando. Eu guardo o cansaço para mim e sigo em frente.
Tem muita gente que me vê no trabalho ou em outros lugares, às vezes dando aquela pescada de sono, encostando a cabeça na parede por um minuto, e já me julga. O olhar das pessoas é pesado. Eles pensam: "Nossa, que cara preguiçoso" ou "Tá dormindo em serviço?". Eles olham com desprezo, como se eu fosse desleixado.
O que eles não sabem é que minha jornada não tem fim. Muitas vezes chego em casa às 7h, 8h ou até 9h da manhã, moído. Durmo até meio-dia e não durmo mais. Levanto porque eu não tenho ninguém para fazer a comida por mim. Eu não tenho ninguém para arrumar a casa no meu lugar.
Eu não posso me dar ao luxo de escolher dormir ao invés de fazer os afazeres. Se eu não levantar, ninguém faz. O descanso vira luxo quando a obrigação chama. Meu cansaço não é de farra, é de batalha. Se essas pessoas soubessem que eu troco meu sono pelo bem-estar das minhas filhas, o julgamento virava respeito.
Além do cansaço físico, tem outro desafio gigante: eu sou um homem criado de um jeito "bruto". Eu não entendo absolutamente nada do universo feminino. Para mim, tudo é um desafio. Pentear cabelo? Esquece. Eu não sei fazer aqueles penteados bonitos, mal consigo passar a escova sem elas reclamarem. Tentar combinar roupa ou entender os sentimentos delas é como tentar ler em outra língua.
Como não tenho uma esposa ali para ensinar essas coisas, todo dia é dia de aprender coisas novas. E o desafio só aumenta. Recentemente, a Claryssa virou "mocinha" e, vou ser sincero, está sendo um desafio enorme para mim. São situações delicadas, mudanças no corpo e na mente que eu, como homem, nunca vivenciei. Mas estou encarando de frente, buscando aprender como ser o apoio que ela precisa nessa nova fase. Minhas mãos grossas ainda se atrapalham, mas o esforço para entender esse mundo delas é diário.
"Claryssa e Pérola,
Se um dia vocês lerem isso, já adultas, saibam: todo o cansaço valeu a pena. Eu não fui o pai perfeito, longe disso, mas fui o pai que ficou. Sacrifiquei meu sono porque vocês são tudo para mim. Sejam fortes, independentes e saibam que nunca estiveram sozinhas."
- Do seu pai, Paulinho.
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